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Clínica

O que são cuidados paliativos (e o que não são)

Por que cuidados paliativos não são cuidados de fim de vida, o que a OMS e a literatura dizem, seis mitos que precisam cair e por que, em certos casos, paliativo prolonga a vida em vez de abreviá-la.

Dr. Luís Feitosa · Responsável Técnico
· · 12 min de leitura

Começando pelo mal-entendido mais comum

Se há uma área da minha prática clínica em que eu preciso gastar tempo desfazendo mal-entendidos, é essa. Quase toda família que ouve, pela primeira vez, a proposta de cuidados paliativos reage da mesma forma: “ah, é quando não tem mais nada a fazer”. E essa frase é, quase ponto a ponto, o contrário do que cuidados paliativos realmente são.

Cuidados paliativos não são cuidados do fim da vida. Não são abandono terapêutico. Não são morfina pra acelerar a morte. Não são consequência de “não ter mais nada a fazer”. São uma abordagem clínica integral, ativa, com método, com evidência, e (importante) com muito a fazer. O que muda é o que se está fazendo: troca-se a busca exclusiva pela cura, quando ela não é mais possível, pela busca pela melhor qualidade de vida possível no tempo que se tem. Às vezes em paralelo com o tratamento curativo; às vezes em lugar dele. Quase nunca depois dele.

Eu escrevo esse texto como médico que convive com essas conversas toda semana, e que sabe o quanto as palavras importam nesse tema.

O que a OMS (2002) realmente define como cuidados paliativos

A definição de referência é da Organização Mundial da Saúde, publicada em 2002 e mantida em revisões subsequentes. Vou deixar o texto na forma mais fiel possível ao original, porque cada palavra foi pensada:

“Cuidados paliativos são uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e suas famílias diante de problemas associados a doenças que ameaçam a vida, através da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação adequada e tratamento de dor e outros problemas físicos, psicossociais e espirituais.”

Leia de novo, com calma. Cada expressão ali é deliberada. “Identificação precoce”: ou seja, quanto antes, melhor, não só no fim. “Doenças que ameaçam a vida”: não só doenças terminais. “Qualidade de vida” como objetivo clínico legítimo, medido, perseguido. “Paciente e sua família”: a unidade de cuidado é ampliada. “Problemas físicos, psicossociais e espirituais”: o escopo vai muito além da medicação.

Essa definição é o ponto de partida de qualquer conversa honesta sobre o tema.

Seis mitos sobre cuidados paliativos, desfeitos

Mito 1: “Cuidados paliativos são só para pacientes terminais”

Falso. A evidência e as diretrizes recomendam início precoce, muitas vezes junto com o tratamento curativo ou modificador da doença. A associação de paliativo com “últimos dias” é um hábito cultural, não uma descrição técnica da prática.

Mito 2: “Cuidados paliativos é só dar morfina”

Falso. A morfina e outros opioides são ferramentas importantes no controle de dor moderada a grave, e seu uso, quando correto, é seguro e proporcional. Mas são apenas uma parte de um arsenal que inclui antieméticos, antidepressivos, ansiolíticos, corticoides, neurolépticos em baixa dose, anticonvulsivantes no contexto de dor neuropática, técnicas não farmacológicas, fisioterapia, terapia ocupacional, psicoterapia, apoio espiritual e outras intervenções. Reduzir cuidados paliativos a “morfina” é como reduzir oncologia a “quimioterapia”.

Mito 3: “Cuidados paliativos é a mesma coisa que hospice”

Relacionados, mas distintos. Hospice, no modelo norte-americano, é um conceito de serviço voltado especificamente para o cuidado nos últimos meses de vida, normalmente com critérios formais de elegibilidade (como expectativa de vida estimada em até seis meses). Cuidados paliativos são uma abordagem clínica mais ampla, que pode começar muito antes (em qualquer ponto da trajetória de uma doença grave) e que pode coexistir com tratamentos ativos. Todo hospice é paliativo, mas nem todo cuidado paliativo é hospice. No Brasil, a realidade prática ainda mistura os dois conceitos, e isso também contribui pra confusão.

Mito 4: “Aceitar cuidados paliativos significa parar o tratamento”

Falso. Cuidados paliativos podem, sim, coexistir com tratamento curativo ou modificador de doença. A pessoa em quimioterapia pode estar em cuidados paliativos concomitantes. A pessoa em diálise pode estar em cuidados paliativos. A pessoa que fez uma cirurgia recente pode estar em cuidados paliativos. O que se chama de “cuidados paliativos exclusivos” é uma categoria diferente, e também não significa “parar de cuidar”. Significa mudar o objetivo do cuidado: em vez de combater a doença em si, cuidar intensamente dos sintomas, da funcionalidade e do sofrimento que a doença produz.

Mito 5: “Cuidados paliativos é desistir do paciente”

Falso, e é o mito que mais me incomoda. Cuidados paliativos são uma forma diferente de não desistir. É desistir de uma ilusão (a de que haverá cura quando a biologia da doença já tornou isso impossível) para não desistir da pessoa, que continua viva, com direito a conforto, dignidade, presença, afeto, sentido. Quando um médico fala “não tem mais o que fazer”, ele está errado. Sempre há o que fazer. O que existe é o momento em que o que se faz precisa mudar.

Mito 6: “Cuidados paliativos antecipam a morte”

Falso, e há um ponto importantíssimo da literatura aqui. Em vários contextos clínicos bem estudados, pacientes que recebem cuidados paliativos integrados têm qualidade de vida melhor, menor ansiedade e depressão, e (em certos cenários) sobrevida semelhante ou até maior do que pacientes que recebem apenas tratamento modificador de doença sem integração paliativa. Vou voltar a esse ponto no próximo bloco, porque ele merece atenção.

Quando começar: a evidência

Provavelmente o estudo mais citado no tema é o de Temel e colaboradores, publicado no New England Journal of Medicine em 2010. É uma referência fundamental pra quem trabalha com cuidados paliativos.

O estudo randomizou pacientes recém-diagnosticados com câncer de pulmão de não pequenas células metastático em dois grupos: um recebeu tratamento oncológico padrão isolado, e o outro recebeu tratamento oncológico padrão integrado a cuidados paliativos precoces desde o diagnóstico. O que aconteceu:

  • O grupo que recebeu cuidados paliativos precoces teve qualidade de vida significativamente melhor ao longo do acompanhamento.
  • Teve menos sintomas depressivos.
  • Recebeu, nas semanas finais de vida, menos tratamento agressivo (menos quimioterapia perto do fim, menos internações em UTI).
  • E, curiosamente, sobreviveu em média mais tempo: 11,6 meses no grupo com paliativos precoces versus 8,9 meses no grupo com tratamento padrão isolado.

Um ponto importante de honestidade sobre esses números: o estudo foi em câncer de pulmão metastático de não pequenas células especificamente, e o desfecho primário era qualidade de vida. A sobrevida mais longa foi achado secundário. A literatura posterior mostra, de forma consistente, benefícios em qualidade de vida e controle de sintomas; o efeito sobre sobrevida, quando aparece, depende da doença estudada, da intensidade do programa e do momento em que os cuidados paliativos entram. O ponto que permanece firme e que interessa à família é este: cuidados paliativos precoces, bem executados, não encurtam a vida. No pior cenário, igualam. Na maior parte dos cenários estudados, preservam qualidade de vida e, às vezes, sobrevida.

Ou seja: os pacientes que tiveram atenção dedicada aos sintomas, ao sofrimento e à qualidade de vida desde o início, por uma equipe treinada em paliativos, viveram melhor, e, naquele estudo específico, viveram mais. Esse trabalho, junto com outras referências na mesma linha, mudou a forma como as diretrizes internacionais de oncologia tratam o tema, e é por isso que organizações como a Associação Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) no Brasil defendem, há anos, o início precoce de cuidados paliativos em qualquer doença grave que ameaça a vida, e não apenas nos últimos momentos.

O que um time de cuidados paliativos faz no domicílio

No domicílio, cuidados paliativos se traduzem em um conjunto concreto de ações clínicas que são, na prática, o oposto de “não fazer nada”:

  • Controle de sintomas: dor, dispneia, náusea, vômito, ansiedade, insônia, delirium, fadiga, constipação, prurido, secreções respiratórias. Cada um desses sintomas tem abordagem específica, ajuste individualizado, protocolo próprio, reavaliação frequente.
  • Planejamento avançado de cuidado: conversa estruturada com o paciente (quando ele quer e consegue participar) e com a família sobre valores, desejos, limites e decisões antecipadas. Isso inclui, quando apropriado, orientações sobre o que fazer em determinadas situações futuras.
  • Apoio à família: o familiar cuidador é parte da unidade de cuidado. Orientação clínica, apoio emocional, orientação sobre como conversar com outros familiares, apoio no luto quando é o tempo disso.
  • Apoio espiritual quando desejado: não se impõe nada, mas se abre espaço. A dimensão espiritual é, pela definição da OMS, parte do cuidado paliativo. Para algumas famílias é central, para outras é secundária, e ambos os caminhos são legítimos.
  • Coordenação com outras equipes clínicas: oncologista, cardiologista, nefrologista, neurologista, equipe de home care. Cuidados paliativos não substituem os demais especialistas; se integram a eles.

Os cinco princípios fundamentais

Resumindo numa linguagem que se apoia na definição da OMS e na prática diária, os cinco princípios fundamentais de cuidados paliativos são:

  1. Alívio de sintomas que causam sofrimento, físicos ou não, como objetivo clínico legítimo em si mesmo.
  2. Não antecipar nem prolongar artificialmente o processo de morrer, quando chega seu tempo. Paliativo não é eutanásia, e também não é obstinação terapêutica. É uma terceira via: cuidado proporcional e humano.
  3. Afirmar a vida e reconhecer a morte como processo natural. Há vida até o último momento, e a morte é parte do arco da existência, não um fracasso da medicina.
  4. Integrar aspectos psicossociais e espirituais ao cuidado, porque o sofrimento raramente é só físico.
  5. Apoiar a família durante a doença e, quando for o caso, no luto. A família é paciente junto, num sentido técnico e honesto da palavra.

Como conversar com um familiar resistente à ideia de cuidados paliativos

Isso é algo que eu vejo com frequência. A família chega, percebe que o cuidado paliativo faria sentido, mas encontra resistência forte, muitas vezes do próprio paciente, às vezes de um familiar específico que não consegue ouvir a palavra sem se sentir traído.

O que eu sugiro:

  • Não comece pela palavra “paliativo”: comece pelo problema concreto. “O que está te incomodando hoje?” “Qual sintoma mais atrapalha?” “O que você gostaria que mudasse nas próximas semanas?”. A partir das respostas, apresente o cuidado como a resposta a esses problemas.
  • Explique pela ótica do conforto e da continuidade do tratamento, não pela da terminalidade. “Existe um time que vai cuidar da dor, da falta de ar, do cansaço, sem atrapalhar o que o oncologista está fazendo”.
  • Não tente convencer num único encontro. A aceitação de cuidados paliativos muitas vezes acontece em camadas, ao longo de semanas. O primeiro “não” não é final.
  • Pergunte ao paciente o que ele quer saber. Alguns querem saber tudo, outros querem só confiar na equipe. Respeitar esse limite é parte do cuidado.
  • Não imponha; ofereça. O paciente tem direito de recusar cuidados paliativos, e esse direito precisa ser respeitado mesmo quando a equipe acredita que seria o melhor caminho.

Conclusão pessoal

Vou sair um pouco do registro técnico pra fechar. Cuidar de pacientes em cuidados paliativos foi, pra mim, a parte mais densa e, ao mesmo tempo, mais bonita da minha formação. É o lugar onde a medicina volta a ser sobre a pessoa. Sem exame pra resolver tudo, sem conduta protocolar pra cada situação, com decisão clínica que precisa passar pelo juízo, pela conversa, pelo olho no olho com quem está sofrendo e com a família que está junto.

É o lugar onde você percebe, como médico, que controlar bem uma dor é tão tecnicamente exigente quanto qualquer procedimento que você faz num centro cirúrgico. Que conduzir uma conversa difícil com uma família não é “papo”, é ato clínico. Que estar presente num momento em que não há mais o que curar, mas há muito a cuidar, é uma forma de medicina que precisa ser aprendida e treinada como qualquer outra.

No Amor em Saúde, cuidados paliativos não são um “produto” que a gente vende. É uma das razões pelas quais a empresa foi fundada. Se a sua família está diante de uma doença grave e quer entender se faz sentido iniciar cuidados paliativos (mesmo que seja só pra conversar, sem compromisso), a gente conversa.

Se quiser entender como o serviço funciona na prática (o que a equipe faz em casa, como o plano clínico é montado, como a família acompanha), veja a página de cuidados paliativos domiciliares. E, quando fizer sentido, fale com a equipe clínica pelo WhatsApp no (63) 99135-8888. A primeira conversa é só uma conversa, sem compromisso, no seu tempo.

Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?

A nossa equipe clínica conversa com você sem compromisso. Atendimento em Palmas e em todo o Tocantins, com plantão 24h para pacientes ativos.

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